A Festa da Menina Morta - Matheus Nachtergaele

Há 20 anos uma comunidade ribeirinha na Amazônia comemora a Festa da Menina Morta, festa essa que gira em torno de Santinho (Daniel Dantas), garoto que ficou conhecido quando recebeu da boca de um cachorro o vestido rasgado da menina desaparecida, e desde então recebe revelações da menina, que anuncia para os devotos no dia da festa. Dentre os devotos estão Tia (Ednelza Sahdo) e Das Graças (Conceição Camarotti) duas senhoras que vivem na casa do rapaz, lhe fazendo comida, limpando a casa e aturando os rompantes de raiva do rapaz, que tem uma série de manias e aspirações ao estrelismo devido a ser o centro das atenções de toda a comunidade.

Santinho Mantém uma relação incestuosa com seu pai (Jackson Antunes) um alcoólatra que vive encostado na fama do filho e amargurado pelo suicídio da esposa(Cássia Kiss), mãe de santinho, mulher esta que vive nos pensamentos do filho, que tenta encontrar um elo quebrado entre a mulher que o gerou e a pessoa nas lembranças turvas de sua mente. Contrapondo com todos os devotos que seguem piamente os dizeres de Santinho, temos Tadeu (Juliano Cazarré) um rapaz cético, irmão da menina morta, que custa a ver sentido na devoção pelo rapaz que faz (ou pelo menos diz fazer) milagres e bençãos. 


Bebendo da fonte do cienasta Claudio Assis, Nachtergaele apresenta sua própria visão do norte brasileiro, levantando questões como a dicotomia entre o religioso e o profano, o mundano, o lado animal do ser humano que se mostra claro em cada close do diretor, em cada exclamação ou mastigar animal da carne de porco, porco esse que protagonista de uma das cenas mais agonizantes do filme, onde o mesmo é afogado e somos obrigados a ouvir durante alguns minutos seus gritos de desespero, mas diferente de Assis, Nachtergaele evita o explícito e nos deixa imaginar o quão horrível pode ser, liberando em nossas mentes o lado mais instintivo e cruel, mesmo na cena do sexo incestuoso entre pai e filho, Nachtergaele mostra uma câmera envergonhada, tímida, deixando para nossa imaginação criar a cena que a luz esconde, o que torna tudo mais nojento aos nossos olhos. 

A fotografia de Lula Carvalho é maravilhosa, é dramática, teatral ao mesmo tempo que trás um pouco de realidade aos personagens alegóricos e caricatos de Nachtergaele. Santinho é afetado e delicado ao mesmo tempo que é bruto em suas crises dramáticas, tornando suas cenas um espetáculo que não cabe ao cenário, mas que trás ao espectador todo o conflito interno de um rapaz que tenta incessantemente compreender o mundo que o cerca. 

 festa da Menina Morta mostra ao mundo que Matheus Nachtergaele tem sim um grande potencial como diretor, ao mesmo tempo que mostra as deficiências de um diretor em sua estréia, mas é compreensível pois a vontade de mostrar um potencial há tanto guardado fica gravado em cada segundo desta história sobre a eterna dualidade do ser humano. 

Thales de Mendonça.